Governo de Senegal pede investigação sobre 'suspeita de corrupção' na CAF após perda do título da Copa Africana

O governo de Senegal solicitou, nesta quarta-feira, que fosse aberta uma investigação por “suspeitas de corrupção” dentro da Confederação Africana de Futebol (CAF), depois que a entidade decidiu consagrar Marrocos como campeão da Copa Africana de Nações. A declaração oficial foi publicada pela Secretária de Estado.
— O Senegal não pode tolerar uma decisão administrativa que apague o compromisso, o mérito e a excelência esportiva. O Senegal rejeita de forma inequívoca esta tentativa injustificada de espoliação. O país solicita a abertura de uma investigação internacional independente sobre suspeitas de corrupção dentro dos órgãos dirigentes da CAF — disse o governo de Senegal em nota oficial.
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Dois meses após a decisão da Copa Africana de Nações, a CAF decidiu mudar o que havia sido um título épico para Senegal, que, dentro de campo, venceu por 1 a 0 uma partida repleta de polêmicas e reviravoltas. Em decisão do Conselho da entidade, ficou determinado que os senegaleses foram penalizados com uma derrota por W.O. (3 a 0, segundo o regulamento) e que Marrocos passa a ser o campeão.
A decisão da CAF se deu após pleito da Federação Real Marroquina de Futebol (FRMF) e foi tomada com base nos artigos 82 (deixar o campo antes do término regular da partida sem a autorização do árbitro) e 84 (a equipe que infringir as disposições do artigo 82 será eliminada definitivamente da competição e perderá a partida por 3 a 0) do regulamento da competição.
Entenda o caso
Até os acréscimos do segundo tempo da etapa regulamentar da final, Marrocos e Senegal protagonizavam uma final morna e equilibrada e empatavam em 0 a 0. Tudo mudou aos 47 minutos do segundo tempo, quando o o árbitro congolês Jean-Jacques Ndala marcou falta de Seck em Hakimi em lance que terminaria com a bola empurrada para as redes por Sarr, no que poderia ser o gol do título senegalês.
Mas foi aos 52 minutos da segunda etapa que um lance ainda mais polêmico incendiou os jogadores senegaleses. O atacante espanhol naturalizado marroquino, Brahim Díaz, do Real Madrid, caiu na pequena área e reclamou com veemência de um suposto puxão de Diouf. Após ser chamado pelo VAR, o árbitro marcou o pênalti.
A decisão revoltou os jogadores de Senegal. Alguns fizeram gestos de que teriam sido prejudicados pela arbitragem. Após orientação do técnico Pape Thiaw, o time se retirou de campo. A confusão durou cerca de dez minutos, até que o capitão Sadio Mané, ex-Liverpool e atualmente no Al-Nassr-SAU, foi até o vestiário e convenceu seus companheiros a retornarem ao gramado.
Responsável pela cobrança, Brahim Díaz tinha, no último lance da partida, a chance de virar herói de um título que Marrocos não conquistava há 50 anos, desde 1976. Mas o atacante tentou uma “cavadinha”, viu Mendy ficar parado no meio do gol e defender a cobrança, para o choque dos companheiros e dos milhares de marroquinos que lotavam as arquibancadas.
Embalados pela defesa do pênalti e a segunda chance na partida e diante de um time marroquino “zonzo”, os senegaleses construíram o gol do título no início do primeiro tempo da prorrogação emuma bela jogada coletiva foi concluída com perfeição por Papa Gueye, que acertou o ângulo de Bono em chute de extrema felicidade de fora da área.
Esse havia sido o segundo título da história de Senegal na competição — o primeiro foi na edição de 2021/2022. Um roteiro que havia transformado em vilão Brahim Díaz, artilheiro do torneio e até então o melhor jogador da competição, e coroado o capitão Sadio Mané, até então o responsável pelo troféu conquistado por seu país. No entanto, a decisão da CAF desta terça-feira, muda o troféu de mãos, embora não apague os contornos épicos da final da competição.
Veja a nota oficial do governo de Senegal
"O Governo do Senegal expressa o seu profundo pesar após a decisão proferida pelo Comitê de Apelação da Confederação Africana de Futebol (CAF) de retirar da seleção nacional senegalesa o título da Copa Africana de Nações de 2025 e atribuí-lo a Marrocos.
Esta decisão sem precedentes e de excepcional gravidade contradiz diretamente os princípios fundamentais da ética esportiva, entre os quais se destacam a justiça, a lealdade e o respeito pela verdade do jogo. Ela resulta de uma interpretação manifestamente errônea dos regulamentos, levando a uma decisão flagrantemente ilegal e profundamente injusta.
Ao colocar em causa um resultado obtido ao final de uma partida que foi devidamente disputada e vencida de acordo com as regras do jogo, a CAF compromete seriamente a sua própria credibilidade e a confiança legítima que os povos africanos depositam nas instituições esportivas continentais.
O Senegal não pode tolerar uma decisão administrativa que apague o compromisso, o mérito e a excelência esportiva. O Senegal rejeita de forma inequívoca esta tentativa injustificada de espoliação.
O país solicita a abertura de uma investigação internacional independente sobre suspeitas de corrupção dentro dos órgãos dirigentes da CAF.
Além disso, o Senegal recorrerá a todas as vias jurídicas apropriadas, inclusive perante os tribunais internacionais competentes, para garantir que a justiça seja feita e que a primazia dos resultados esportivos seja restabelecida.
O Governo aproveita a ocasião para reiterar a solidariedade da nação com os cidadãos senegaleses detidos em Marrocos após os incidentes ocorridos na final da Copa Africana de Nações. Ele permanece plenamente comprometido em acompanhar este caso para garantir um desfecho rápido e positivo.
O Senegal permanecerá firme, vigilante e inabalável na defesa dos direitos da seleção nacional senegalesa e na restauração da honra do esporte africano.
Feito em Dakar, 18 de março de 2026
Marie Rose Khady Fatou FAYE
Secretária de Estado junto ao Primeiro-Ministro, encarregada das Relações com as Instituições, Porta-voz do Governo"






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